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terça-feira, 22 de junho de 2021

 A Reforma religiosa

O contexto

No início do século XVI, ca Igreja católica enfrentava uma crise interna. Parte do clero havia se distanciado dos princípios originais da fé cristã, como pobreza, humildade, auxílio aos mais necessitados, justiça, simplicidade, retidão, penitência, etc. A Igreja havia se voltado para a ostentação do luxo e do poder, mais preocupada com questões políticas e econômicas do que com questões espirituais.

Na Igreja disseminavam-se práticas como a simonia (venda de cargos eclesiásticos e de relíquias, em especial de objetos atribuídos a Jesus e aos santos), a venda de indulgências (pagamento pelo perdão dos pecados) e o comportamento desregrado de muitos membros do clero, que os afastavam dos preceitos religiosos e aproximava-os da vida mundana.



Além disso, alguns dogmas da Igreja representavam um obstáculo ao desenvolvimento das práticas mercantilistas, como a doutrina do “preço justo” e o pecado da usura. O “preço justo” estabelecia que o valor de uma mercadoria deveria ser a soma do custo da matéria-prima mais o valor da mão de obra, sem qualquer taxa de lucro. Da mesma forma considerava-se como pecado da usura a cobrança de juros sobre o valor de um empréstimo calculado sobre o tempo da quitação da dívida.

Entre os séculos XII e XV, com a formação das monarquias nacionais, cresceu entre os povos de uma mesma região um sentimento de unidade nacional. Esse sentimento colocava a autoridade papal em risco, pois a religião deixava, aos poucos, de representar o elemento de unidade dos povos europeus.


Os precursores da Reforma

Os anseios por reformas e as críticas aos desmandos da Igreja ocorriam desde o século XIV. Na Inglaterra, John Wycliffe, professor de Teologia em Oxford, criticava a conduta clerical de vender indulgências, questionava o acúmulo material da Igreja e pregava a ideia de que qualquer pessoa poderia se salvar se tivesse fé, pois a salvação viria de Deus.

O movimento iniciado por Wycliffe no século XIV não teve forças para abalar totalmente as estruturas da Igreja, porém chamou a atenção de outros clérigos que também estavam descontentes com a Igreja católica.

Na região da Boêmia, sul da atual Alemanha, Jan Huss, discípulo de John Wycliffe e professor da Universidade Carolina de Praga, pregava contra o luxo e a corrupção dentro do catolicismo. Por não se retratar, foi condenado por heresia no Concílio e Constança, preso e queimado vivo em 1415.

As críticas radicais contra o papado e as práticas irregulares da Igreja serviram de base para a Reforma protestante e as revisões da unidade católica no século XVI.

A Reforma luterana

Martinho Lutero, monge agostiniano, viveu na Alemanha na passagem do século XV para o XVI. Nessa época, a Alemanha fazia parte do Sacro Império Romano-Germânico.

Por estar fragmentado politicamente e ter forte influência da Igreja Católica, o território alemão era extremamente tributado pela Igreja e, por isso, os príncipes viviam descontentes com a interferência dos clérigos, o excesso de impostos e o acúmulo de territórios da Igreja na região. Era um contexto bastante propício à Reforma.

Em 1517, o papa Leão X decretou, por meio de uma bula, o aumento do valor das indulgências com o intuito de concluir a Basílica de São Pedro, no Vaticano. Tetzel, um frade dominicano, ficou encarregado da venda de indulgências na Alemanha.

Revoltado com a situação, Lutero formulou 95 teses contrapondo-se às indulgências, além de vários outros aspectos da fé católica, e as colou na porta da Igreja de Wittenberg.



Teses de Lutero contra indulgências

Entre as teses publicadas no documento de Martinho Lutero, estavam:

“21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda

pena e salva pelas indulgências do papa. [...]

27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma

sairá voando [do purgatório para o céu].[...]

36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela pena e culpa, mesmo

sem carta de indulgência.[...]

95 teses. Debate para o esclarecimento do valor das indulgências pelo doutor Martin Luther, 1517.

Disponível em: <www.luteranos.com.br/lutero/95_teses.html>. Acesso em: 12 jun. 2017.


Graças à imprensa, aprimorada por Gutenberg, as teses de Lutero se espalharam pela Europa, chegando a intelectuais e letrados da época.

Diante da repercussão das teses, o papa Leão X exigiu a imediata retratação de Lutero; o que não ocorreu. Novamente, em 1520, o papa ordenou, por meio de uma bula papal, a retratação, sob a pena de Lutero ser considerado herege. Diante da nova negativa, Lutero foi excomungado, mas conseguiu proteger-se com a ajuda de parte da nobreza germânica.

Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e católico fervoroso, convocou a Dieta de Worms, para julgar os atos de Lutero contra a Igreja Católica. Apesar do apoio de vários príncipes germânicos ao movimento reformista, Carlos V determinou a excomunhão de Lutero e o controle eclesiástico sobre a vida intelectual e religiosa de todos. Refugiado no castelo do príncipe Frederico da Saxônia, Lutero passou a trabalhar na tradução da Bíblia para o alemão.

Nesse ambiente de contestação, Thomas Müntzer, líder anabatista e seguidor radical das ideias luteranas, coordenou uma revolta de camponeses alemães, entre 1523 e 1525, reivindicando o fim da servidão camponesa, a liberdade de escolha dos líderes religiosos, o fim dos tributos e a divisão das terras pertencentes à Igreja. A nobreza, apoiada por Lutero e interessada na posse das terras clericais, reprimiu de forma violenta essa revolta.

Em 1529, em uma nova tentativa, Carlos V tentou submeter os príncipes reformistas na Dieta de Espira.

Estes, por sua vez, foram contra e passaram a ser denominados protestantes. No ano seguinte, os príncipes do Sacro Império se reuniram na cidade de Augsburgo na Dieta de Augsburgo, na qual o teólogo Philipp Melancthon, amigo pessoal de Lutero, apresentou os princípios fundamentais da doutrina luterana na chamada Confissão de Augsburgo:

• a salvação pela fé;

• sacerdócio universal dos fiéis;

• livre interpretação da Bíblia;

• culto celebrado na língua vernácula;

• apenas dois sacramentos reconhecidos: o batismo e a eucaristia.

A partir de 1530, o Sacro Império foi palco de uma guerra civil entre os príncipes protestantes e grupos leais ao catolicismo e ao imperador. Esse conflito durou 25 anos. Em 1555, nove anos após a morte de Lutero, o conflito entre o imperador Carlos V e os príncipes protestantes teve uma definição. Conhecido como Paz de Augsburgo, o tratado determinava que os príncipes teriam a liberdade para escolher a religião em seus territórios, cabendo aos súditos a obrigatoriedade de segui-la.

A Alemanha se dividiu entre católicos e protestantes. O catolicismo predominou no sul, e o luteranismo, no norte. Outros países do norte da Europa também aderiram ao luteranismo, como Dinamarca, Suécia e Noruega.

A Reforma calvinista

Na França, em meados do século XVI, o teólogo João Calvino passou a defender as ideias luteranas em Paris. Mas, perseguido, mudou-se para Genebra, na Suíça, local em que as novas ideias já haviam sido bem recebidas.

Em Genebra, Calvino tornou-se líder político e religioso. Durante seu governo, criou o Consistório, órgão que controlava a vida política, econômica e religiosa dos cidadãos. Eram proibidos o jogo a dinheiro, o luxo, as danças e o teatro. Era forte a defesa de uma vida ascética, isto é, desligada dos valores mundanos.



Em sua nova doutrina foram mantidos dois sacramentos (batismo e eucaristia); o culto resumia-se à leitura e interpretação da Bíblia, preces e cantos; e os pastores eram considerados simples fiéis responsáveis pelas preces. A doutrina calvinista defendia a predestinação, ou seja, a salvação do indivíduo dependia exclusivamente da vontade divina. Além disso, o calvinismo aceitava a ideia do lucro, contrapondo-se ao catolicismo, que associava tal prática à avareza e ao apego excessivo ao dinheiro.

O calvinismo difundiu-se por várias partes, sobretudo onde prosperavam as atividades econômicas e mercantis. Os huguenotes na França, os puritanos na Inglaterra, os presbiterianos na Escócia e os reformistas na Holanda eram todos calvinistas.

A Reforma anglicana

Na Inglaterra, desde o século XIV, os abusos cometidos pela Igreja católica estavam sendo expostos por figuras como o teólogo John Wycliffe. Porém, a reforma religiosa só ocorreu por uma insatisfação real.

Henrique VIII (1509-1547), monarca inglês, era um fiel defensor da Igreja de Roma. Porém, casado com Catarina de Aragão, princesa espanhola, estava insatisfeito por ela não lhe dar um filho homem para sucedê-lo no trono. Em 1529, Henrique VIII enviou ao papa Clemente VIl um pedido para anular seu casamento, pois planejava casar-se com Ana Bolena, sua amante.



Após a negativa do papa em atender-lhe a solicitação, Henrique VIII decidiu romper definitivamente com a Igreja católica para poder concretizar seus interesses.

Em 1534, Henrique VIII, apoiado pelo Parlamento, aprovou o Ato de Supremacia, que estabelecia a criação de uma nova Igreja na Inglaterra, que foi denominada anglicana, na qual o rei era seu chefe supremo, e determinou o confisco de todos os bens e terras da Igreja católica. O anglicanismo manteve elementos cerimoniais do catolicismo (liturgia e sacramentos), porém sem reconhecer a hierarquia eclesiástica.

A consolidação da religião anglicana deu-se apenas no reinado de Elizabeth I (1558-1603), filha de Henrique, que incorporou elementos calvinistas à doutrina anglicana.

A Contrarreforma

O movimento reformista avançava pela Europa e ameaçava o poder da Igreja católica, que durante séculos controlou a sociedade ocidental. Na busca por uma saída para a crise religiosa que se instalou em grande parte da Europa, a alta hierarquia católica adotou um posicionamento coeso, fundamentado e vigoroso em relação às novas religiões.

Durante o Concílio de Trento (1545-1563), convocado pelo papa Paulo III, foram reafirmados alguns princípios católicos:

• a salvação pela fé e pelas boas obras;

• o celibato clerical;

• os sete sacramentos (batismo, confissão, eucaristia, crisma,

matrimônio, ordens sagradas e unção dos enfermos);

• a indissolubilidade do casamento.

Além disso, outras medidas foram adotadas com a intenção de contrapor a expansão do protestantismo: a instauração do Santo Ofício, tribunais da Inquisição, criados em 1231, que tinham por objetivo interferir na sociedade católica, e o lndex librorum prohibitorum, lista de livros cuja leitura era proibida; nela estavam boa parte da literatura renascentista e obras dos líderes reformistas.



A Companhia de Jesus, fundada pelo padre espanhol Inácio de Loyola, teve, também, papel fundamental com sua ação em elucidar e propagar a fé católica e, ao mesmo tempo, combater a expansão protestante.


domingo, 20 de junho de 2021

 A Primeira Guerra Mundial  (1914-1918)



Antecedentes

O desenvolvimento da economia capitalista, no final do século XIX, provocou uma corrida em busca de novas colônias, que lutavam por matéria-prima, mercado consumidor e mão de obra barata. Esse contexto, Pós-Segunda Revolução Industrial, causou grandes rivalidades entre as potências europeias. Alemanha e Itália entraram tarde na partilha de territórios coloniais, por estarem envolvidas em conflitos internos que culminaram em seus respectivos processos de unificação. Com o processo de unificação, a Alemanha transformou-se numa potência econômica e militar rompendo com o equilíbrio político que se mantinha no continente europeu desde o Congresso de Viena no início do século XIX.

Além das disputas territoriais e econômicas, o fortalecimento do sentimento nacionalista acrescentou mais um componente a essa combinação que levaria a Europa à guerra. Nesse clima de rivalidades, as potências procuraram se unir para somar forças e defender seus interesses por meio de uma complexa política de alianças. A Alemanha, em 1879, assinou um pacto com o império Austro-Húngaro, apoiando a pretensão deste sobre os Bálcãs. A Itália aderiu a esse pacto em 1882, quando a França invadiu a Tunísia, território africano cobiçado pelos italianos. Estava formada a Tríplice Aliança.

Deixando rivalidades históricas de lado, Inglaterra e França firmaram acordo para manter o equilíbrio de forças na Europa e pactuaram que, em caso de guerra, haveria ajuda mútua. Esse acordo ficou conhecido como Entente Cordiale (entente, ‘entendimento” em francês) (1904). A aproximação da França com a Inglaterra pode ser explicada pela derrota francesa na guerra Franco-Prussiana em 1870, em decorrência da qual os franceses foram obrigados a ceder à Alemanha os territórios Alsácia-Lorena, além de pagar uma pesada indenização. Esse cenário originou um sentimento revanchista antigermânico entre os franceses.

Derrotada na guerra Russo-Japonesa, a Rússia estava cada vez mais dependente dos capitais inglês e francês. De outro lado, a Alemanha tinha grandes pretensões no Leste Europeu. O czar russo buscou, então, unir forças com a Inglaterra e a França, nascendo, a partir desta aliança, a Tríplice Entente.

As alianças estabelecidas entre as principais nações europeias nesse período fundamentavam-se mais em interesses particulares e inimizades comuns do que em afinidades entre elas. Com isso o clima de tensão na Europa se intensificou, com a Tríplice Aliança e a Tríplice Entente procurando aumentar suas respectivas áreas de influência.

sábado, 19 de junho de 2021

 O Iluminismo



As origens do Iluminismo

O pensamento iluminista teve suas origens nas teorias filosóficas, políticas e científicas de alguns pensadores dos séculos XVII e XVIII, entre eles:

• Galileu Galilei (1564-1642): é considerado o “pai da ciência moderna” e foi um dos responsáveis pelo de-senvolvimento do empirismo, método científico moderno utilizado nas pesquisas dos fenômenos naturais.

• René Descartes (1596-1650): é conhecido como o “pai do racionalismo moderno”. Em sua obra Discurso do método defendia a ideia de que a razão é o único caminho pelo qual se pode atingir o conhecimento.

A aplicação da razão estendia-se também à compreensão do Universo, que ele definia com base nos conceitos físicos e matemáticos.

• John Locke (1632-1704): pensador inglês e teórico do liberalismo político, se opôs ao Estado absolutista e defendeu a garantia dos direitos naturais dos seres humanos: vida, liberdade e propriedade. A função do Estado, segundo Locke, é garantir às pessoas esses direitos por meio de um conjunto de leis, a Constituição, que limita a interferência estatal na vida dos cidadãos e dá a eles condições de se defenderem. Seu pensamento político foi exposto na obra Segundo tratado do governo civil e inspirou os colonos norte-americanos em sua luta pela independência, bem como os revolucionários franceses no processo da Revolução Francesa, em 1789.

lsaac Newton (1643-1727): cientista, filósofo e teólogo inglês, revolucionou as ciências com suas teorias sobre as leis físicas que regem o Universo. Por meio de seus postulados físicos, Newton estabeleceu a concepção de um Universo regido por leis físicas imutáveis e, portanto, mecanicista.

Os princípios iluministas

Apesar de não formarem um corpo doutrinário único, as ideias iluministas apresentavam alguns pontos

em comum:

Racionalismo: a razão era tida como único guia capaz de conduzir ao conhecimento das coisas.

• Leis universais: o Universo passou a ser visto como uma máquina cujo funcionamento estava subme-

tido a leis naturais.

Anticlericalismo: os iluministas, ainda que alguns fossem ateus, se não negavam a existência divina,

negavam qualquer possibilidade de intervenção divina e dispensavam, assim, as práticas religiosas que

pediam uma intervenção de Deus na natureza.

Antiabsolutismo: os iluministas se opunham ao absolutismo por considerá-lo um sistema irracional, 

baseado em falsos argumentos religiosos e que violentava os direitos fundamentais do ser humano.


Os pensadores iluministas


Montesquieu (1689-1755), um dos mais destacados teóricos do Iluminismo, escreveu, em 1721, Cartas persas, obra na qual criticava os costumes e as instituições da França absolutista. Em O espírito das leis (1748) discorreu sobre as diversas formas de governo, defendendo a limitação dos poderes dos monarcas e a divisão de poderes no Estado (Executivo, Legislativo e Judiciário).

François Marie Arouet (1694-1778), ou Voltaire, talvez tenha sido o mais conhecido iluminista de sua época. Com estilo sarcástico, desferia críticas constantes às religiões e ao absolutismo. Em Cartas inglesas enalteceu a monarquia parlamentar britânica. Tornou-se conselheiro de reis como Frederico II, da Prússia, e Catarina I, da Rússia.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), nascido em Genebra, na Suíça, transformou-se no mais democrático pensador do Iluminismo. Valorizando muito mais a natureza do que a razão, Rousseau era um ardente defensor de que o ser humano é naturalmente bom, mas é corrompido pela sociedade, exaltando assim o contato com a natureza. Em Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens, atacou a propriedade privada como origem de todos os males da sociedade. Escreveu ainda O contrato social, em que defendeu o governo democrático baseado num contrato entre governante e governados em prol do bem comum, constituído por direitos e deveres recíprocos.

A grande obra deixada pelos iluministas foi a Enciclopédia, ou Dicionário razoado das ciências, das artes e dos ofícios, cuja composição foi orientada por Diderot e D’Alembert, com a colaboração de vários autores iluministas.

Apresentava inúmeros aspectos do conhecimento humano sob a ótica da ilustração. Apesar dos entraves que foram criados à sua publicação, a Enciclopédia transformou-se no principal veículo de difusão das ideias iluministas nos círculos intelectuais burgueses no século XVIII, levando à formação do ideário liberal.


O pensamento econômico

Além do debate político e social, o pensamento iluminista suscitou novas formulações econômicas em oposição ao mercantilismo, em sua natureza intervencionista. Uma delas foi a fisiocracia.

Os fisiocratas afirmavam que a economia, assim como a natureza, é regida por leis que independem de qualquer tipo de intervenção. Assim, concluíram que existem leis naturais na condução dos assuntos econômicos e, portanto, não deveria haver qualquer tipo de intervenção do Estado nesses assuntos.

Para os fisiocratas, a agricultura (diretamente ligada à natureza) era a principal atividade econômica daqual todas as outras dependiam. Os principais teóricos da fisiocracia foram Quesnay (1694-1774), Gournay (1712-1759) e Turgot (1727-1781), que lançaram a palavra de ordem dos liberais: laissez-faire, laissez-passer (deixai fazer, deixai passar).

No último quartel do século XVIII, o escocês Adam Smith (1723-1790) lançou as bases do liberalismo ecoômico em sua obra Investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. Partindo do pensamento fisiocrata e de suas críticas ao mercantilismo, defendia a liberdade econômica e de mercado, o direito individual sobre a propriedade privada e a não intervenção do Estado. Discordava, porém, dos fisiocratas ao estabelecer que o trabalho humano era a fonte de riqueza por excelência.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

A Sociedade dos Poetas Mortos





A história aconteceu no final da década de 50 século XX, na  academia Welton, uma escola fundamentada na tradição que preparava apenas rapazes, que contrata um ex-estudante Keating para dar aulas de literatura. O filme começa com uma apresentação para os alunos, na qual o gestor discursa sobre os fundamentos do colégio: tradição, honra, disciplina e excelência. Ainda,destaca que os alunos que estudam na escola são filhos de pessoas de sucesso financeiro e profissional e aspiram que seus filhos mantenham a tradição. Entretanto, a área artística é mostrada de forma negativa, assim, as aulas dinâmicas de Keating provocam aborrecimento dos pais e uma reflexão dos alunos sobre si, criticando os caminhos já determinados socialmente.
Keating tem como propostas aulas que estimulam seus alunos a raciocinarem por si próprios. É um professor fraterno, que tem uma participação bem ativa, mostra uma conduta muito diferente do que é adotada  pela escola. Atuando dessa forma, o professor conquista a afeição dos seus alunos.
Os estudantes, ao pesquisarem os documentos do professor quando era aluno da escola descobre que ele fazia parte da “Sociedade dos Poetas Mortos”, que correspondia em um grupo de alunos que se encontravam para recitar, escrever poesia, ler obras, por fim, defendiam o  “Carpe Diem” (aproveite o dia). Posteriormente, os alunos retomam sociedade, e passam a se encontrarem com os mesmos objetivos.
O auge do filme se traduz no derradeiro acontecimento, quando o gestor leciona a aula de literatura, devido a destituição de Keating, que penetra na sala para apanhar seus pertences. Nesse momento, um dos alunos principia uma atitude, subindo na carteira e dizendo “O Capitão, meu Capitão!”, e dessa forma todos os alunos realizam a mesma atitude, deixando o professor emocionado.

Keating era diferente em sua atitude pedagógica, prevalecendo a afeição, flexibilidade e criatividade, contudo, isso foi satisfatório para transformar os padrões da escola? Ou será que necessitamos de ações políticas nos vários campos para refletirmos e “realizarmos” um ensino diferente?
O filme pode ser encontrado http://www.filmesonlinegratis.me/sociedade-dos-poetas-mortos-dublado/


Peterson Silva de Morais (Sociólogo e professor)

sábado, 3 de janeiro de 2015

CONTOS DE FADAS ATUALIZADOS: FROZEN


Durante muito tempo os meninos e meninas desenvolveram-se escutando as narrativas de contos de fadas. A concepção que predomina é que essas narrações se perpetuam no tempo, pois discutem assuntos globais. Distinto do que imaginamos, o conto de fada tem um discurso ideológico, e grande parte das narrativas apresenta basicamente uma moral. No exemplo aqui vou dar um enfoque na mulher e seu papel de subjulgada, continuamente exposta nessas narrações como uma princesa fraca e inerte. Tantos contos no qual a mulher necessita somente ansiar por ser salva, que se realiza através de um príncipe influente.
É importante enfatizar que os Contos de Fadas contemporâneos como Frozen recuperam as antigas narrações de magias, bruxaria e com a presença da realeza. Entretanto, em seu enredo, em alguns casos, não há a presença da luta entre o bem e o mal, pois esta luta não é essencialmente resultado de atos de uma personalidade ruim. A falta de vilões decisivos é uma inovação que altera o modelo clássico.
Assim, estamos observando atualmente adaptações de certas historias que já têm uma moral mais modernizada. O ponto da transformação desse modelo veio com o filme Frozen. Foi surpreendente ao assistir um conto de princesas, mas sob uma perspectiva mais psicológizante e contemporânea.
Frozen discorre a tragédia de Elsa, filha do rei de Arendelle, que tinha a magia de controlar o frio e a neve. Quando garota, fere em um momento de descontração a sua irmã Ana, com a magia. A partir daquele momento, a princesa é ensinada a ocultar seus poderes, que ficam cada vez mais fortes, para que não ocorram outros acidentes perigosos. As princesas são afastadas e o Castelo do rei é fechado para o público. Porém, depois que seus pais morreram, Elsa é coroada se transformando em rainha de seu país. É no momento que, de forma acidental, após alguns eventos, ela demonstra seus poderes, ocasionando grande alvoroço entre as pessoas da região. Assim sendo, Elsa torna-se uma fugitiva, mas deixa a região com muita neve. Assim, a princesa Ana dá início a uma aventura para achá-la e tentar desfazer a magia.
Certos itens podemos destacar:
No filme Frozen, Elsa e Anna são as princesas  que protagonizaram a historia. Elsa, após a morte de seus pais, foi coroada rainha no inicio do filme. Distinto dos contos clássicos, na qual as princesas só se tornam rainhas após o matrimonio com um príncipe.
Aparecimento frequente nas narrações de contos de fadas clássico: príncipe e princesa cheios de paixões depois um simples contato. Em Frozen, essa paixão torna-se uma sátira. Anna, a irmã de Elsa, procura descobrir o romantismo e no momento em que sua irmã é coroada, se apaixona por Hans, um belo príncipe, que a pede para se casar com ele. Elsa, agora rainha,  reage não aceitando que ela se case com alguém que acabou de conhecer.
O sentimento que está presente, com outra figura dramática, é o sentimento de convívio, ao estarem convivendo gradualmente e estabelecendo algo juntos. Mais interessante também é observar Anna entre duas paixões, contudo não existe uma apreciação moralista por ela estar entre dois amores simultaneamente.
Distinto dos contos de fadas clássicos no qual a princesa é uma protagonista inerte sem evolução, somente espera a oportunidade em que os acontecimentos se desenvolvem a seu benefício, Frozen apresenta como tema essencial a evolução individual e maturidade das protagonistas.
Elsa tem a magia da criação e controle do gelo, todavia em momentos de aflição ela perde o controle de seus poderes. No inicio do filme Ana é atingida pela magia de Elsa, seus pais preferem ocultar seus poderes para não ferir outras pessoas. Podemos entender os poderes de Elsa como seus receios e temores que se manifestam inconscientemente e que ela procura reprimi-los e não compreendê-los. A sua procura durante o conto é ou reprimindo, ou externando, no entanto sempre se recolhendo de tudo, pois não consegue conviver com esta situação.
Anna também tem um caminho particular a seguir: ferida no coração pela magia de Elsa, ela deve se deparar com uma ação de amor verdadeiro para não sofrer o congelamento por toda a vida. Inserida em um romantismo idealista espera que a sua salvação esteja em um beijo de uma pessoa que a ame de verdade. Posteriormente iremos observar que a ação deve partir da própria Ana e não de outra pessoa, ela deve conseguir sua própria salvação, e não aspirar um príncipe encantado para salvá-la.
Todo a história tem um grande vilão é desta forma que os eventos acontecem, às vezes não há um herói empolgante, mas há um grande vilão, pois tal vulto, ao menos nos contos de fadas, não pode deixar de ter, devido as nossas ideias repletas de representações  presentes de dicotomias, a luta entre o bem e o mal. Em Frozen não há feiticeiros(as) poderosos (as), ou rainhas malignas. O ponto alto de tensão no drama é o confronto de Elsa e Anna, e delas consigo mesmas.
Os vilões estão presentes na história, contudo não são motivações das grandes dificuldades  passadas pelas protagonistas. Elsa, para conviver com sua magia, é guiada a reprimir seus sentimentos mais intensos. Assim, o vilão do enredo está intrínseco na própria Elsa.
Anna finda sua maldição e completa a magia do congelamento, no entanto ela consegue, minutos antes, salvar a Irmã da morte. Sua atitude de amor verdadeiro se efetiva. Assim, Ana salva a si próprio.

Em presença dessa atitude, Elsa compreende que só encontrando-se perto do amor fraterno,  que pode estar em bem consigo e com sua magia. Distintos dos contos clássicos, na qual a princesa se salva por um príncipe encantado, elemento extrínseco; em Frozen, a salvação está na esfera da pessoalidade, intrinsecamente.

Os Trolls, engraçados monstrinhos que possuem magia, teriam a função do transcendental no enredo, o poder místico, também não são possuidores do poder incondicional; permanecem continuamente, em formato pedras e vivem de uma forma harmônica com quem busca ajuda, sem estabelecer terror, pois todas as pessoas precisam de ajuda. Certamente, todas as pessoas precisam de ajuda e este é o aspecto fundamental de Frozen juntamente com o “amor de verdade”, constituímos em indivíduos sem perfeição evoluindo constantemente.
O interessante de Frozen são as protagonistas construindo suas subjetividades. Observamos no filme que o sentimento entre as irmãs, sem a vinculação do romantismo, de um príncipe encantado salvador, corresponde um grande progresso em relação à representação da mulher nos contos de fadas.

Frozen não mostra simplesmente uma perspectiva mais modernizada do amor e da imagem da mulher, é uma linda obra sobre conhecer a si mesmo, e de se colocar no lugar do outro.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013


ESCOLA NA VISÃO DE BOURDIER
Peterson Silva de Morais[1]
Ana Kelly de Mesquita[2]


            
De uma forma aparente a escola é um espaço que o aprendizado acontece democraticamente, do mesmo modo para todos os estudantes.
            Embora democratize o ingresso a educação formal através da escola pública e gratuita, permanecerá havendo uma intensa relação entre as disparidades sociais, principalmente culturais.  Essa relação só pode ser esclarecida quando se analisa que a escola aprecia e determina aos alunos atributos que não são distribuídos de forma igual na sociedade, especialmente, o capital cultural.


            O capital cultural é um conceito mencionado por Bourdieu para esclarecer como a cultura em uma sociedade repartida em classe se transforma em algo que as classes dominantes empregam para acentuar as diferenças.
            Desta forma, a classe dominante valoriza a sua própria cultura e a impõe para as classes dominadas. Bordieu entendeu este fato e a nomeou de arbitrário cultural dominante. Arbitrário cultural dominante nada mais é: uma cultura se impor sobre outra. Uma dos mais relevantes subsídios desse sociólogo para a educação foi introduzir todo esse pensamento para a escola. A escola de uma forma dissimuladora coopera para essa cultura dominante e dessa maneira favorecem certos alunos em prejuízo de outros.
            Os desfavorecidos são precisamente aqueles alunos que não tiveram contato através da família com o capital cultural, sejam na forma de obras literárias, sejam por não ter tido acesso a ambientes e informações  espontaneamente acessíveis aos aluno de poder aquisitivo. Eles não conseguem dominar os mesmos códigos culturais valorizados pela escola, o aprendizado para eles é muito mais complexo.
       
           Assim, a violência simbólica parte do entendimento de que a cultura simbólica age de forma arbitrária, no momento em que ocorre uma naturalização da realidade dada, e sua manutenção por meio das praticas escolares.
     O Capital cultural idealizado por Bourdieu é de grande relevância, pois nos faz compreender por que nem todos são bem sucedidos na escola. Tem-se a ideia de escola democrática pregada por Anísio Teixeira, por exemplo, então na teoria todos que estudam e se esforçam conseguiriam sucesso, mas sabemos que isto não  acontece , por quê? Seria falta de inteligência? A resposta é: “Não” . Neste ponto se insere a ideia de Bourdieu: Algumas crianças, das classes menos abastadas não possuem a cultura que a escola demanda, acarretando o favorecimento de alguns alunos dotados de capital cultural obtido através da família. Mas podemos nos questionar, haveria solução para esse problema?
  Para Bourdieu a solução seria revelar esse funcionamento implícito da instituição. O papel do professor aparece nesse momento como sendo a ponte, o elo entre o que é ensinado na escola e a realidade daquele aluno, por exemplo, ao tratar de determinado conteúdo oferecer exemplos que façam parte do cotidiano do aluno. O professor deverá ser maleável para trabalhar com diferentes realidades.



[1] Cientista Social e estudante de Pedagogia da UFPI
[2] Psicopedagoga, Educadora Física e estudante de Pedagogia da UFPI